14 dezembro 2012

Falsa aparência

Esta semana, de forma natural e no decorrer de uma conversa, disseram-me que parece que eu uso uma capa. Isto, porque quando me perguntam "como estás?", a minha resposta é sempre positiva. Não há o típico "vai-se andando" português, nem a usada expressão "melhores dias virão", que por acaso eu até uso regularmente. Para a pessoa que me disse isto, eu estou sempre bem-disposta, com um sorriso na cara e minimizo os acontecimentos menos bons dos últimos tempos com ideias e interjeições, que fazem acreditar que estou a contornar a situação e talvez a encobri-la. Para a pessoa que me disse isto, alguém que está numa situação de desemprego, sem futuro profissional definido, com uma perna em Portugal e outra fora do país, com o namorado do outro lado do mundo durante quatro meses e com a família a trezentos quilómetros, esse alguém não pode manter uma postura igual aquela que eu aparento.
Ora bem, e com isto me questiono: há algum código comum ou alguma conduta que alguém na minha situação deva seguir? É errada a minha postura? Não acredito que seja. E eu sinto-me bem como estou. A minha tenra idade e as coisas que me têm acontecido, têm-me tornado uma pessoa mais fria, é verdade, mas também me têm ensinado a relativizar e a ver sempre o outro lado das coisas. Estou desempregada, mas estou feliz. Foi despedida, pois fui. E agora, vou ali atirar-me da ponte por causa disso? Fazer-me de coitadinha? Deixar de gostar de mim? Perder a vontade de beber copos com as minhas amigas? Deixar de me cuidar? Não pintar os lábios com um batom vermelho? 
O meu namorado está longe, pois está. Mas agora vou andar aí aos caídos e a chorar porque ele se foi embora? Foi escolha dele, é certo. Mas que culpa tenho eu que o trabalho dele, a profissão dele e ele próprio seja reconhecido do outro lado do mundo e não no país dele? Para mim, o simples facto de saber que para ele tudo está a correr bem, faz-me feliz. Feliz por ele, ainda que isso, de certa forma possa comprometer o nosso relacionamento.
Claro que gostava que as coisas fossem de outra forma. Teria outro sabor o serão desta sexta-feira chuvosa ser passado no chão sala, com um jantar especial, um bom vinho tinto e velas acesas por todo o lado; claro que seria ainda mais feliz se pudesse, a esta hora, estar a trabalhar na minha profissão, com toda a pressão a ela associada. Mas vou dar cabeçadas na parede por isso não estar a acontecer? Não! Claro que não. Pelo contrário. Ainda conheço as minhas capacidades, ainda sei aquilo que sei fazer e, acima de tudo, sei muito bem que sei fazer o meu trabalho bem feito. Acusem-me de falta de modéstia, não quero saber.
Não escondo que há dias menos bons. Claro que há. Há dias em que acordo chateada com o mundo e comigo mesma por estar a viver uma fase assim. Há dias em que choro por não ter trabalho e até sinto um piquinho de vergonha por estar numa situação assim. Porém, até ao dia de hoje nunca me agarrei a estes sentimentos. Infelizmente, é sempre mais fácil apontar o dedo a quem mantém uma postura assim; é tão mais fácil recorrer à expressão "é tudo fingimento", em vez de se perder cinco minutos a fazer o exercício de ver as coisas de outra forma.

2 comentários:

Vanita disse...

Amiga, compreendo tão bem tudo o que escreves. E sei que sim, que consegues sacar a felicidade no meio disto tudo. Se pode parecer uma capa, pode, e chega a preocupar que assim seja. Mas depois, basta estar atento, e tu estás bem. Dentro do bem que é possível estar, mas estás. E enches-me de orgulho. Porque de facto, as fases menos boas da vida, nos tornam pessoas mais capazes, mais maduras e mais verdadeiras. Gosto muito de ti, amora. Tudo isto se vai resolver em bem, só tens de ter paciência :)

Ninhas disse...

Amen!!!!!!!!!!!! É por isso q me fazes sempre rir! Porque tens essa capacidade de relativizar!